Ballet de vagabundo

E eu dancei sozinha a minha tristeza
Tentando parecer leve nos meus passos e me sustentando nas pontas dos dedos e dando meus saltos que nunca foram leves e carregando minhas lágrimas que nunca foram leves
Eu dancei sozinha para as paredes amarelas que me adoeciam e me circundavam esperando minha morte
Eu dancei com as janelas fechadas para que minha tristeza não fosse embora
Eu dormi para que a minha tristeza fosse embora
Eu dormi e acordei e não sei se isso é bom
Eu dormi e não tive tempo para ler Reale
Eu deitei e não me importei com a Guerra Fria
Eu deitei e tentei amar a Guerra Fria
E as mortes de outra guerra que não fosse a minha

Mundo Azul

Tapete listrado sob meus pés

As listras terminam onde as manchas começam

As manchas têm o formato da minha sombra

Um pouco distorcida

E a vizinha fala, simpática

Há meses tentando descobrir o que ela acha que são meus mistérios

Ela diz Oi, como vai?

Eu, bem, eu estou medicada, e você?

Oi, eu respondo

O mundo dela é cinza, o meu é azul

O mundo dela é cinza de mesmice, lá se vai.

O cara do lado força um sorriso, a gentileza engasgada na raiva da vida

Eu aceno

Estou medicada, talvez ele devesse

O mundo dele é amarelo, amarelo de morte

O meu é azul.

E tem o cara do outro andar

Sempre olhando em linha reta

Brilho opaco

O mundo dele é preto

Preto de desesperança, entorpecimento das receitas médicas

As caixas vazias de remédio empilhadas

Bem, eu estou medicada, ele também

Meu mundo é azul de quase

Azul quase melancolia, quase tristeza

Azul de insubstancialidade

Azul de extra dose, olhar torto, ressaca

Azul de quase suicídio

Suicídio prematuro e agonia lucrativa.